Viveiro de pássaros

Viveiro de Pássaros... Bonito de Olhar... Mas quanta tristeza...

No alegre cantar... Manduca armava arapuca para pegar passarinhos. Levava o filho Pinduca, cantando pelo caminho: ‘Tem patativa, sabiá, tico-tico e tangará; tem pintassilgo, curió, pinta roxo e xororó; tem bicudo, trinca ferro, quero-quero e bem-te-vi; cardeal, galo da serra, pomba-rola e juriti; tem cambachirra, bacural, tiê sangue e urutal; tem viuvinha, jassanã, bacaninha e garapã; tem canário, serra-serra, tarurano e colibri; papagaio, periquito, maritaca e araçari.’

Manduca e Pinduca passavam na mata, às vezes, o dia inteiro, caçando mil passarinhos, para botar no viveiro. Viveiro grande, bonito, cheio de pássaros belos, de várias raças e cores. Verdes, azuis, amarelos...

Mas na caçada o Pinduca, um dia junto ao riacho, pegou em sua arapuca, um pica pau de penacho que, quando viu a gaiola, fez uma cara de mau, pegou a sua viola, e deu com o bico no pau! “Eu sou o pica pau e nasci para voar. Na prisão do seu Manduca ninguém vai me segurar!”

Seu Manduca, quando viu o pica pau na arapuca, botou a mão na cabeça e gritou para o Pinduca:

– Pinduca, solta esse bicho! Esse pássaro não presta, é o moleque mais teimoso que existe em toda a floresta. Atrapalha a cantoria, faz barulho, faz berreiro. Vai fazer desarmonia, vai acabar com o viveiro. E de fato o pica pau, mal entrando no viveiro, foi dizendo logo aos outros que era o dono do poleiro. Implicou com a maritaca, beliscou o cardeal e disse que o tico-tico tinha cara de pardal. Mas depois, para agradar, deu um sorriso gostoso, e disse até que o xexéu era um pássaro cheiroso.

E se apresentou a todos: “Sou o pica pau. Se quiserem me ajudar, no viveiro do Manduca ninguém vai nos segurar. A seguir, batendo o bico, puxando pela imaginação, começou a matutar como sair da prisão!

E matutou... matutou... Já estava esquentando a bola, quando uma idéia feliz surgiu em sua cachola.

– Passarinhos, passarinhos, reúnam os prisioneiros. Há muitos homens malvados, que nos prendem nos viveiros, nas gaiolas, arapucas! armadilhas e alçapões! Só para ouvirem, felizes, nossas alegres canções. Assim, se nós não cantarmos, seu Manduca, na verdade, para não gastar alpiste, dará a nossa liberdade.

Os pássaros concordaram:

– Senhor pica pau, se é para a coisa melhorar, no viveiro do Manduca ninguém mais irá cantar.

Mas o Manduca malvado, redobrando a crueldade, nunca mais lhes deu comida, nem tão pouco a liberdade. Para não morrer de fome, os passarinhos, então, recomeçaram seus cantos com tristeza no coração: “Peço aos pais dos menininhos, para ouvir nossa canção. Ao cruzar nossos caminhos, não nos leve à prisão. Digam a todas as crianças que tenha bom coração, não destruam nossos ninhos nem nos prendam em alçapão.

Mas o pica pau valente, que de briga não tem medo, logo na manha seguinte, reuniu o passaredo. E do alto do poleiro, animando a passarada, fez um berreiro tão forte que abalou a arquibancada.

– Passarinhos, passarinhos, ficar de bico calado é protesto de andorinha, que nunca deu resultado. Por isso vamos gritar até o bico partir e até que os homens malvados não consigam mais dormir!

E durante vários dias foi aquela gritaria. Seu manduca reclamava que há três noites não dormia, mas ao invés de os soltar, de volta para seus ninhos, colocou esparadrapo no bico dos passarinhos. Ouviu-se então no viveiro um canto triste, abafado! Era o coro do poleiro, cantando de bico amarrado.

Até que um dia o Pinduca, com pena, de madrugada, arrancou o esparadrapo, do bico da passarada. Houve um grito de alegria, tudo se esquece, afinal. E aconteceu no viveiro um tremendo carnaval.

– Pica pau, se é para a coisa melhorar, vamos dar a meia volta, todo mundo irá cantar. Mas o nosso pica pau, que não é de meia volta, preferiu ficar calado, curtindo a sua revolta.

E continuou pensando... Já estava esquentando a cuca! Quando avistou no telhado o gato do seu Manduca.

– Oh, seu gato! Bichaninho, desça daí do telhado, venha bater um papinho.

O gato: “Não sou de papo furado!

– Que é isso? Nós queríamos dizer, com sinceridade, quantas coisas lhe daremos, em troca da liberdade.

– Eu pesco nos mares, nos rios nos lagos, por isso me chamam Martim pescador. Eu vivo pescando a vida inteirinha, desde manhãzinha até o sol se pôr. Gatinho valente, herói das gatinhas, se acaso você nos quiser libertar, terá todo dia as mais lindas sardinhas, que eu pesco nos lagos, nos rios, no mar.

– Eu sou o joão-de-barro afamado, com ninho de barro, um bom construtor. Darei a você um castelo dourado, um sonho encantado, um ninho de amor.

– Nós somos rendeiras, voando e cantando, descendo e trançando pra lá e pra cá! Faremos um véu para sua gatinha. Que coisa mais linda! No mundo não há.

– Então, seu gato, resolva! Pense bem, meu camarada, nas sardinhas, no castelo e no véu pra namorada.

– Diante de tanta coisa, de tanta promessa à vista, eu confesso, passarinho, não há gato que resista.

Em seguida, lentamente... se arrastando pelo chão, dá um pulo de repente e abre as portas do alçapão.

E a passarada feliz, batendo as asas em festa, foge toda em nevoada, de volta para a floresta! E houve música nas matas, houve cantiga nos ninhos, festejando a liberdade de todos os passarinhos.

Desde então ficou provado que o gato não é mal, e até muitas vezes canta, no coro do pica pau: miau, miau!

Menino, neste mundo existe tanta coisa boa para você brincar... As asas dos passarinhos foram feitas para voar. 

(Colaboração de Regina Elisa Pomin (8 Anos), de Rio das Ostras, RJ)

Página principal | Arquivo