Heráclito: "Tudo flui"

José Alves Martins

Heráclito era natural de Éfeso, na Jônia, e viveu, mais ou menos, entre 540 e 476 antes de Cristo. Nascido de família aristocrática, que conservava a prerrogativa de usar os títulos régios dos fundadores da cidade (arcontes), teria, no entanto, renunciado, em favor do irmão, ao direito de fazer uso desses títulos políticos.

Em 548 antes de Cristo, a Jônia fora atacada e invadida por Dario, rei dos persas, tendo sido esses reveses militares e políticos e talvez seu desapego às coisas mundanas os motivos que levaram Heráclito a se desencantar com a política e a vida pública e delas se afastar para se entregar à sua verdadeira vocação: a filosofia.

Lembremos que Éfeso, cidade natal de Heráclito, seria, alguns séculos mais tarde, importante centro do cristianismo primitivo. Foi lá que o apóstolo Paulo viveu e pregou cerca de dois ou três anos, tendo consolidado nessa cidade um dos primeiros grupos de cristãos fora da Judéia. Foi lá também que o apóstolo João, a quem é atribuída a autoria do Quarto Evangelho, passou sua velhice e se tornou o nome de maior destaque na tradição cristã de Éfeso.

Os estudiosos notaram certa semelhança entre o texto de abertura do evangelho de João ("No princípio era o Logos...") e o pensamento de Heráclito, também chamado o filósofo do Logos.

Segundo cronistas antigos, o florescimento e o amadurecimento da produção intelectual desse filósofo ocorreram por volta da 69ª Olimpíada, ou seja, entre 504 e 501 antes de Cristo, sendo um dos poucos pensadores pré-socráticos de cujas obras possuímos fragmentos (cerca de 140). Destaquem-se neles, entre outros traços notáveis, o desprezo pelas superstições e práticas religiosas populares ("querem purificar-se na lama") e a crítica à tradição mitológica retratada nos poemas de Homero e de Hesíodo.   

Encontra-se em Heráclito, diz um estudioso, a mesma atitude racionalista de Parmênides: não devemos dar crédito à tradição mítica ou religiosa nem ao testemunho enganoso dos sentidos (que nos dão conhecimentos imediatos, empíricos). "O pensamento de ambos se abre na clareira que o Logos possibilita, ou seja, se constrói baseado na razão." Apesar disso, o heraclitismo é uma filosofia nitidamente oposta à de Parmênides, que, ao contrário de Heráclito, sustentava a unidade e a imutabilidade de cada ser.

Platão resumiu o pensamento de Heráclito ao dizer que para esse filósofo "tudo flui" ("panta reî", em grego). Ou seja, o mundo (o Universo) é um fluxo ou mudança permanente de todas as coisas, tudo passa, tudo se move e se transforma sem cessar.

Essa ideia mestra de Heráclito foi por ele expressa na seguinte frase: "Não podemos nos banhar duas vezes no mesmo rio, porque suas águas não são as mesmas e nós também não somos os mesmos". Esse fluxo ou transformação perpétua de todas as coisas, porém, não se faz ao acaso ou caoticamente. Segue uma lei natural. "Trata-se uma unidade que é multiplicidade e de uma multiplicidade que é unidade. Tudo é Um. O mundo é a tensão dos contrários múltiplos e essa multiplicidade tensa constitui a unidade do uno".

Essa unidade do múltiplo e essa multiplicidade do uno se dão por meio da physis, que para Heráclito é o fogo primordial (princípio de todas as coisas), que não é o fogo-quente-calor que percebemos em nossa experiência cotidiana. Esse fogo primordial (termo que nos vem do latim "focus", que originou, ainda, a palavra "foco" em português) é o que Heráclito chama também de Logos, que não é senão, podemos deduzir, a união de Força e Matéria, com a ação incessante da primeira sobre a segunda no processo de evolução universal.

Platão e Aristóteles procuraram conciliar as afirmações de Heráclito com as de Parmênides, visando assim superar o impasse a que chegara o racionalismo grego com a oposição de conceitos dessas duas doutrinas; os sofistas aproveitaram algumas das idéias do pensador de Éfeso sobre o valor do conhecimento humano; o panteísmo da doutrina estoica adotou sua teoria do fogo primordial ou Logos; e, modernamente, ele é considerado o precursor de muitas noções sobre os fenômenos da natureza.

Heráclito e Parmênides são tidos, na opinião de muitos, como os dois principais filósofos do pensamento pré-socrático. Através dos tempos, não cessaram de ser lidos, citados, comentados e interpretados das mais diversas maneiras.  Com efeito, coube a ambos, no terreno da reflexão filosófica, apresentar as questões e respostas, os problemas e impasses que definiram, nos séculos seguintes, os caminhos da razão no Ocidente.

(O autor é Militante da Filial São Paulo, SP)

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