Criança, capital humano

Maria Lucia Rossi de Almeida

Comumente a educação ministrada em plano terreno exige mais do mais jovem

"A infância é o chão sobre o qual caminharemos o resto de nossas vidas." Lya Luft, in Perdas e Ganhos, Editora Record, 2004, 25a edição, pág. 26.

Criança nasce alma de artista. Vibra por tudo que a rodeia. Imagina, fantasia, inventa e recria o mundo. Expressa-se livremente. Quanto impossível converte em possível nesse movimento! Ela contém todas as potencialidades do Universo: configura-se canal aberto e receptor da energia dele. Personifica atributos admirados por todos – pureza, ingenuidade, alegria, espontaneidade, falta de preconceitos, afetuosidade, valorização das pequenas coisas.

É pensamento unânime que o contato social, a partir da família, vai sobrepondo comportamentos e atitudes em nome da educação e da conseqüente sociabilização, causando certo embutimento no jovem e no adulto das virtudes naturais na criança. Será necessário recuperá-las, porque se configuram de grande importância para a construção do lado verdadeiramente humano do homem.

CRONOLOGIA. Criança, jovem e adulto são classificação do espírito encarnado, de acordo com a fase de desenvolvimento em vida física, pois desconhecemos o estágio do espírito que neles habita. Só conhecemos a cronologia da atual passagem terrena e reconhecemos as fases de desenvolvimento nessa mesma passagem. A encarnação é apenas um fragmento da trajetória de cada um, pois a vida não se constitui o interstício entre nascimento e morte do ser humano. Por pertencer ao espírito, ela é eterna. Também o grau de evolução de cada um está vinculado à progressiva superação de imperfeições e aumento do contingente positivo do patrimônio espiritual realizado em sucessivas vindas a este mundo ou a outros mundos-escola. Portanto, só o percebemos, o vislumbramos, mas não o sabemos com precisão.

Evolução é movimento do espírito que se reflete no físico, no intelectual, no emocional e no psíquico. Assim, a idade do espírito de uma criança nem sempre é compatível com a idade do físico. Pode ser mais ou menos avançada que de adultos de sua relação.

O espírito em grau superior, mesmo de uma criança, é o que vai induzir a evolução de outros em estágio inferior. Isso explica aparentes inconsistências: crianças em tenra idade com desenvoltura afetiva, intelectual ou manifestação de dons, habilidades e competências em grau além do esperado para sua fase de desenvolvimento. Como também casos em que este se mostra aquém do esperado, porque o espírito está em nível inferior na escala evolutiva. 

RESPEITO. Nessa linha de entendimento, sendo espíritos, a relação de respeito entre adulto e criança deve ser de troca mútua, em pé de igualdade. Comumente a educação ministrada em plano terreno exige mais do mais jovem. Muitas vezes, o adulto desavisado acha que prevalece a hierarquia de idade: ele, o mais velho, tudo pode, mas deve ser tratado com respeito e consideração, esquecendo-se de que deve o mesmo ao menor.

Os aspectos levantados acima constituem a base para a real compreensão dela e para o desempenho bem sucedido do papel dos adultos. Sem pretendermos fechar a questão sobre o que é certo e o que é errado, o que se deve e o que não se deve fazer, convidamos o leitor a refletir conosco sobre os itens destacados a seguir.

Parece importante fixar que a criança é um espírito retornando a este plano para trabalhar seu patrimônio, lapidando arestas correspondentes a imperfeições que ainda carrega. Repassando as etapas do desenvolvimento humano, em cada uma, estará exposta de novo ao confrontamento de seu eu com outras experiências. Terá oportunidade de redimensionamento desse desenvolvimento, buscando sempre galgar níveis mais elevados na escala evolutiva. Apesar de criança, não está iniciando, mas dando continuidade ao processo.

Cabe ter em mente, também, que todo ser humano é complexo. Resulta da composição da genética física, da genética psíquica, em parte do que foram seus pais, da marca ofertada pelo "olhar" da sociedade, da cultura em que  se insere e fruto do olhar primeiro que o saudou  neste   mundo, concordando com  Lya Luft (in Perdas e Ganhos, idem, págs. 31 e 32).

Alguns aspectos não podem ser demovidos desse contexto. Resultam de escolhas anteriores feitas pelo espírito. Outros são passíveis de construção pela vontade própria, quando em vida física. São os capítulos que escreverá e acrescentará à sua história. Usando o livre-arbítrio, vai deliberar sobre o rumo de sua trajetória, podendo desvinculá-la, desobrigá-la de repetir as gerações anteriores naquilo que não foi favorável ao crescimento interno e externo. Esta a parte de sua inteira responsabilidade na complementação de seu patrimônio espiritual.

AMOR. Acima de tudo, destaca-se como imprescindível o amor: "Falta de amor e de atenção pode ser uma emergência", coloca-nos ainda Lya Luft (idem, pág. 46). Pode ser considerado o mais importante liame das relações humanas, que se iniciam no momento do nascimento da criança, até muito antes, na concepção. Ele construirá o solo firme por onde caminhará o ser, desenvolvendo-se saudavelmente. (Evidente que outros fatores contribuem para a saúde física, mental e psíquica.) "Sentir-se valorizado por alguém, amigo, amor, por um grupo, pode ser definitivo" (idem, pág. 38), acrescenta a mesma autora, e muito mais.

Isso se dá no primeiro grupo social que integra – a família. A valorização recebida no seio dela será decisiva para a participação em outros núcleos sociais: escola, instituição religiosa/doutrinária, clube, locais de trabalho etc. Sendo uma experiência positiva, a pessoa poderá lançar-se ao sucesso, caso contrário, deparar-se com a sombra do fracasso. Este, vencido ou apenas minimizado na fase adulta, a duras penas, pois a luta interior ela mesma ocupará o centro da trajetória futura, se quiser curar-se até das marcas chegadas ao corpo físico em forma de doença. Só então, a cura vai partir de uma atitude consciente, originada da idéia de que o amor traz em seu bojo a possibilidade do sofrimento, como um pouco de mal está agregado ao bem para que este seja reconhecido.

Falando de amor, começamos a pensar em relações interpessoais e, em conseqüência, enveredando para o campo da educação, em que esta ocorre. Fundamentalmente, o que a criança vai assimilar e registrar é o implícito no modo de agir, de educar, de ensinar –  o verdadeiro conteúdo de aprendizado para a vida.

A educação se dá em constante interação. E o diálogo é seu princípio. Dá-se, também, a partir de modelos e exemplos, tornando os adultos responsáveis por crianças (pais, professores, instrutores etc) mediadores de educação. Se conscientes de sua importância, estes, automaticamente, vão passar por reeducação, para constituírem exemplos favoráveis e dignos de serem seguidos.

ESPELHO. No desempenho desse papel, destacam-se os pais ou responsáveis pela criança. Eis o primeiro espelho! Cabe-lhes a tarefa primordial na condução e impulsionamento de seu desenvolvimento global. Ao mesmo tempo, participam desse processo todas as demais pessoas da convivência dela e suportes de comunicação com que interage: parentes, mestres, amigos, colegas, brinquedos, livros, revistas, internet, programas de TV, teatro, cinema, circo, música, museu etc. São modelos e exemplos, cada um a seu modo e com linguagem específica, contendo mensagens, aprendizados – filosofias de vida.

O futuro da criança, do jovem e da humanidade como um todo decorre dos caminhos sugeridos pelos mediadores. Os critérios de escolha desses caminhos obedecem à cosmovisão deles. Pautam-se pelo que possuem internalizado: enfoque no "ter" ou no "ser": basicamente, reforço na facilidade das aparências ou  no esforço saudável do trabalho de modo amplo.

Hoje, a sociedade atribui valor exacerbado aos aspectos relativos à aparência e ao "ter". Resulta disso um consumismo que chega a impor normas e quase impingir aos pais certa obrigatoriedade de ceder à insistência da mídia e dos filhos. A razão acaba, muitas vezes, vencida pelo sentimento. É necessária muita habilidade para se sobreporem e equilibrarem os dois lados da existência. Viventes neste mundo, no aqui e agora, mas seguidores e provenientes de/para outros planos, não podemos prescindir do cuidado para com a vida material e com a vida espiritual. Diante disso, a força da educação pela família  deve ser consistente, a ponto de os exemplos dignos suplantarem o peso dos maus exemplos. A criança não estará livre destes, convivendo com a diversidade de educação de pessoas e de suportes de comunicação em outros ambientes. Sabemos que a concorrência é desleal. Entretanto, é preciso sobrepujá-la ou, pelo menos, amenizá-la. Esta, a educação chamada informal.

ESCOLARIZAÇÃO. Outra, que a complementa, é a educação formal, onde se inclui a escolarização realizada na instituição social escola. Também aí as práticas educativas e pedagógicas vão orientar-se pela seleção de filosofias compatíveis com o que se deseja obter para o futuro do homem, variando de escola para escola, de sistema para sistema escolar. Aos pais ou responsáveis, dentro do possível, cabe escolher escolas e modelos adequados a uma educação fortalecedora de princípios éticos e morais; formadores de caráter e valores voltados à construção de relações sociais dignas e propiciadoras de encaminhamento da humanidade para o bem; além de competentes para o desempenho de sua tarefa específica – a de ensinar.

Parece importante não perder de vista que, na criança, habita um espírito com opções feitas antes do nascimento para obter experiências motivadoras de sua evolução a partir do ponto em que se encontrava na encarnação precedente. Isto significa que, mesmo ao primeiro ingresso na escola, não se constitui um vazio total a ser preenchido pelo professor. Intuitivamente ela sabe o que deve fazer. Já possui um conjunto de conhecimentos, competências, habilidades, atitudes incorporado ao seu patrimônio espiritual, que vai, pouco a pouco, desabrochando e se enriquecendo. Pelo desconhecimento desse aspecto é que muito modo de educar, informal ou formal, está fadado ao insucesso. O mediador deve procurar perceber os dons e competências da criança, trazê-los à tona e oferecer vivências compatíveis ao desenvolvimento deles. 

Continua na próxima edição.

A autora é professora, pedagoga, militante da Filial Jundiaí - SP

 

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